Lúmen coeli Regina!
Para Anchieta
Sempre que divisava o Cristo,
O rosto lhe ardia em vergonha.
"Nada fiz do que Ele disse",
Cuidava a sós. E agora?
Vê-lo, de longe, ainda ousava,
Mas em prece esquiva implorava:
"Que Ele não pouse os olhos em mim,
Que não me dirija a palavra."
Fustigava-se: "E se disser: 'Como vai, camarada?'"
Seria seu fim, o golpe de misericórdia.
Pois não fôra assim que Ele saudou a Judas?
Como suportar tamanha concórdia?
"Mãezinha", pedia em segredo,
"Não deixe Seu Filho olhar meu âmago.
Não deixe que veja este resto de homem,
Pois de Seus passos não fiz o meu lastro."
Ai de mim! Lá vem Ele. E agora?
Aproxima-se o Justo; sinto o cansaço.
O coração rui, desaba em escombros...
Mas por que Cristo tem o rosto de barro?
Um riso humano, embora infinito?
Mansidão de quem não conhece o abismo.
O homem cala, pois Ele é o Verbo;
"Como vai, amigo?", diz Cristo, sem sismo.
Com esforço, soluça: "Perdão, Senhor..."
Mas sente a mão d'Ele, o toque sagrado,
E vê a luz pura vazando na fenda
Do pulso que outrora fora perfurado.
Ajoelha-se ao peso de culpas remotas,
Das quedas somadas em negra corrente.
Ousa beijar-Lhe as chagas abertas,
E o calor dessa luz incendeia o descrente.
Cristo o levanta e ri um sorriso
Onde mil sóis não teriam morada.
O abraço o cega (como é possível?)
"Tende paz", diz a voz, em paz mergulhada.
É macio o amplexo, um manto de linho,
Pela primeira vez, o espírito é sereno.
E Cristo se vai, passo manso de tigre;
"Teu Filho falou-me! O Grande ao pequeno!"
Senta-se em calma. Pesa a própria alma.
A sombra passou, findou-se o desatino.
"Obrigado, Mãezinha, eu ta
nto temia..."
E a Mãe, sorrindo, diz: "Segue o Caminho".

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