Noite
numa noite qualquer dessas
que vem e passa
tive uma noite com a Noite
ah! noite inaudita!
senti seus lábios frios, tímidos,
junto ao meu coração palpitante
que há muito, bem muito,
aliciava-me furiosamente
consumamos segredos
o mesmo que faz abrir
as flores noturnas (ah, aquela cestrum nocturnum)
libertando a vertigem dos aromas
gozei sob delírio lunar onírico
- não o gozo ardente, carnal, -
o paroxismo de visões
segregada em sua mansa voz
Noite que desata avessos nós
clareando águas taciturnas
dantes escuras, abismais,
mergulhemos, nus, sem volta.
Cigano
sou cigano, sim
há muito singram os signos
de engano a engano, singro
errar é humano, ouvimos
demasiado humano é o errar, repito
singro seguindo símbolos
como a um viandante perdido
estrangeiro inveterado que sou
tudo concebo às avessas
erro o rumo
rumo selva adentro
sequioso por desertos inauditos
hercúleo purgo trabalhos labirínticos
sem direito a opiáceos tampouco ocasos
dentro da escura noite escura
apagam-se a d’alva, as ursas,
perdura o nevoeiro sobre as águas
de Ícaro, de Narciso, Lorelei's
três existências me possuem
apenas três: Penélope, Telêmaco e Ulisses
dum sempre inicio, canso-me
doutro, permaneço imaturo
do terceiro imagino delírios
Lorelei! Lorelei! Lorelei!
três vezes ninguém!
sombras intranquilas envoltas a nada
se me perguntam a que me refiro
persigo cíclicos enigmas
samsaras psíquicos
ciganos signos que singram
o coração cigano é movediço
rumo à sombra andarilha
gira a pira infinda, Íxion,
nos mais erráticos pensamentos.
Mão esquerda
tudo o que vejo ondula
frequências imprecisas
o que me fareja procura
numa fome e sede infinitas
o meu duplo se oculta
e nas horas impróprias
sou Hamleto perseguindo quimera
em busca doutra face da persona
após doses sugestivas mefistofélicas
unem-se banzeiro e lassidão
como ladrão crucificado
dependurado sou por minhas delinquências
a orfandade cósmica
não me apavora
para tanto com o espanto dou-me conta
o que me abisma é aquela mão invisível
seu toque incognoscível
de quando me sopra
sobem-me calafrios mórbidos
voz soturna que tudo queima
quem é esse? de fato eu sou eu
quando falo daquele eu?
céu e inferno. bilocação num mesmo cérebro
a mão esquerda (de mim e em mim) apodera-se.

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