Três poemas para Eduardo Savella


 


Noite 


numa noite qualquer dessas 

que vem e passa

tive uma noite com a Noite


ah! noite inaudita!

senti seus lábios frios, tímidos,


junto ao meu coração palpitante

que há muito, bem muito, 

aliciava-me furiosamente


consumamos segredos 

o mesmo que faz abrir 

as flores noturnas (ah, aquela cestrum nocturnum)

libertando a vertigem dos aromas 


gozei sob delírio lunar onírico

- não o gozo ardente, carnal, -

o paroxismo de visões

segregada em sua mansa voz


Noite que desata avessos nós

clareando águas taciturnas 

dantes escuras, abismais, 


mergulhemos, nus, sem volta.



Cigano


sou cigano, sim

há muito singram os signos

de engano a engano, singro


errar é humano, ouvimos

demasiado humano é o errar, repito


singro seguindo símbolos

como a um viandante perdido


estrangeiro inveterado que sou 

tudo concebo às avessas 


erro o rumo

rumo selva adentro


sequioso por desertos inauditos

hercúleo purgo trabalhos labirínticos

sem direito a opiáceos tampouco ocasos 


dentro da escura noite escura

apagam-se a d’alva, as ursas,


perdura o nevoeiro sobre as águas

de Ícaro, de Narciso, Lorelei's


três existências me possuem

apenas três: Penélope, Telêmaco e Ulisses


dum sempre inicio, canso-me

doutro, permaneço imaturo

do terceiro imagino delírios 


Lorelei! Lorelei! Lorelei!


três vezes ninguém!

sombras intranquilas envoltas a nada


se me perguntam a que me refiro

persigo cíclicos enigmas

samsaras psíquicos

ciganos signos que singram 


o coração cigano é movediço

rumo à sombra andarilha

gira a pira infinda, Íxion,

nos mais erráticos pensamentos.   



Mão esquerda


tudo o que vejo ondula

frequências imprecisas

o que me fareja procura

numa fome e sede infinitas


o meu duplo se oculta 

e nas horas impróprias

sou Hamleto perseguindo quimera 

em busca doutra face da persona 


após doses sugestivas mefistofélicas 

unem-se banzeiro e lassidão

como ladrão crucificado  

dependurado sou por minhas delinquências 


a orfandade cósmica 

não me apavora

para tanto com o espanto dou-me conta

o que me abisma é aquela mão invisível 


seu toque incognoscível 

de quando me sopra

sobem-me calafrios mórbidos

voz soturna que tudo queima


quem é esse? de fato eu sou eu

quando falo daquele eu?

céu e inferno. bilocação num mesmo cérebro

a mão esquerda (de mim e em mim) apodera-se.

   


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