Tarde de autógrafos (Por Lygia Fagundes Telles)


Primeiro livro. Vou até a editora para saber se está tudo em ordem, a tarde de autógrafos está marcada para as seis horas. O jovem funcionário que me recebe informa que os convites já foram todos expedidos e que na livraria será servido vermute e amendoins. Vai para a sala ao lado para telefonar. Preciso de uma caneta, procuro na mesa e em seguida abro a primeira gaveta do lado direito e dou com as pilhas dos convites e envelopes em branco. Fecho a gaveta, abro depressa a gaveta seguinte, ah! mais convites… Fecho a segunda gaveta e acendo um cigarro. O jovem funcionário está voltando e me conta rindo que foi um fracasso a tarde de autógrafos de um poeta já velho, vazante total, o único comprador que apareceu foi para saber se já tinha chegado na livraria a nova edição d’Os Sertões, Ah! uma coisa de louco! e o moço riu e me ofereceu um café. Fico rindo também e com um ar assim distraído pergunto se a remessa dos meus convites não teve nenhum problema. Não, ele responde num tom enérgico, tudo em ordem, não se lembra exatamente do dia em que eles foram depositados mas já faz algum tempo. “A coisa agora é com o correio.”

Olho para a janela e vejo através do vidro as nuvens se acumulando, escuras, assim descabeladas. Quer dizer que além de tudo tem o tempo, eu pensei. E se nesse fim de tarde desabar uma tempestade? A cidade virando uma Veneza sem pontes, onde os meus amiguelhos lá da Faculdade?, onde os meus camaradas de Letras que por sinal eram raros? Acho elegante essa expressão que ouvi de um português, camaradas de Letras. Podem ser solidários, sim, mas com qualquer tempo? Me vejo solitária como na hora da criação, solitária mais tarde na livraria quase vazia: a hora fluindo em câmera lenta, o pesadelo é lento e a tempestade no auge, os transeuntes passando num pé de vento, ah! como correm. Bebo um gole do vermute ruim e me sirvo dos amendoins murchos. Fico desenhando bem devagar a dedicatória para a velha tia que sacode o guarda-chuva pingando água, Que pena! ela lamenta e eu contesto enérgica, Não tem importância, querida, a senhora não está aqui? Faço agora a dedicatória para a prima que brincou comigo na infância, morou na minha casa e não me lembro do nome, e o nome?! A dedicatória afetuosíssima para o desconhecido e gelada para o único colega que apareceu, um gato pingado que se debruçou e molhou a mesa com o impermeável, centenas de colegas e apenas aquele e ainda se queixando, Tempo ruim, hein?!… Concordo e olho furtivamente para a porta vazia, chuva e sombra.

O jovem da editora desliga o telefone na sala ao lado, está eufórico. “Falei agora com uma jornalista que vai te entrevistar, é um modesto jornal de bairro mas enfim, sempre ajuda…”

Em pensamento vejo chegar a mocinha pingando água, aproxima-se mais enquanto vai apertando os pequenos botões do gravador e se queixando, Ele é um mistério, nunca sei se está realmente ligado, um mistério! Todas as máquinas são misteriosíssimas, concordo e ela faz a primeira pergunta, Quando e por que começou a escrever? A segunda pergunta é para saber se estou emocionada. Estou desesperada! penso e começo a rir. O jovem da editora quer saber por que estou rindo e me oferece um segundo café. Aceito e penso que a solução ideal é o autor morrer na manhã dos autógrafos, os convidados chegando e o caixeiro avisando em voz compungida, O autor morreu de manhã, falência múltipla dos órgãos e o corpo está sendo velado na Biblioteca Municipal. O recém-chegado suspira com alívio, ótimo não precisará comprar o livro que não ia mesmo ler.

Consulto o meu relógio de pulso e me despeço do moço da editora que me aperta num abraço, Boa sorte! Desço a escada de caracol e me lembro que li em alguma apostila uma frase tão desesperada de Shakespeare, “Dispo o meu coração como uma puta!”.

Na rua, olho o céu onde as nuvens se juntaram galopantes e descabeladas com jeito assim de uma conspiração. Lembrei-me então da ameaça bíblica, Deuteronômio? “O céu que está por cima da tua cabeça será de bronze e a terra debaixo dos teus pés será de ferro.” Respiro fundo, enfim, é o meu primeiro livro, recuso a me interpretar mas quando começar a tempestade o meu céu secreto estará desabrochado em estrelas.

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